Cornélio Pires
O bandeirante do folclore paulista e o pai da música caipira

(adaptado de O Sacy, XXXV Semana Cornélio Pires, de 20 a 28/08 (não consta ano), Tietê, São Paulo

[...] Tu, Cornélio, és um dos pouquíssimos que vão ficar. Há tantas verdades nos teus tipos, tanta vida, há tanto humanismo na tua obra, há tanta beleza e originalidade em teu estilo, que estás garantido: estás à prova do tempo que varre impiedosamente o que é medíocre. [...] Monteiro Lobato

Cornélio Pires nasceu em 13 de julho de 1884, no bairro de Sapopemba, na cidade de Tietê. Viveu seus quase 74 anos, em andanças, entre causos e música caipira.
Já no seu batizado ocorria um fato que como causo seria contado:
O padre Gaudêncio, amigo e parente da família, pergunta prestes a batizá-lo: "Qual vai ser o nome do menino?" Uma das tias presente à cerimônia e apaixonada por um tal Rogério, pensando em homenagear o amado, responde: "Rogério!" O padre Gaudêncio, já muito velho, não titubeia e... "Eu te batizo Cornélio Pires".
Lá pelas tantas, já um moço, apaixona-se pela Belinha e escreve ao pai da moça, pedindo-a em casamento. A resposta também veio por escrito:

"Sinhore Tuvúrcio.
Reçuvi a bóça. Tanho a dizer-lhe q. a rapariga não tain querere eu sou o dono da familha e não tanho q. dare satisfações, porque quando não qremos eu e a Jarônima ninguáin mais tem querere. Fasça seus bérços e trate de procurare oitra q. não tanha quaine zele.
Quem bérços faz na miséria morre. Biba!
J.Juzé Joaquim Preira."


Cornélio Pires volta para São Paulo, desiludido, a afogar na bebida as dores de amores. Acabou por perder o trabalho por falta de freqüência. Retorna a Tietê, dedicando-se à poesia e à vida boêmia. Não tardou a endividar-se. Deu satisfações aos seus credores por meio de um poema, publicado no jornal "O Tietê":

CADÁVERES
A quem quiser a carapuça

Credores e credores!... mais credores!...
Tenho-os já de um cento muito perto...
e tive nos livrões título aberto.

A coluna do Deve (estou bem certo)
é cheia de algarismos de valores!
A do Haver... assemelha-se a um deserto!
Algarismos? Nem um! Só cobradores.

Correm a vista pelo plano branco
sem divisar sequer um habitante!
Só os cadáveres vêem... Sou franco.

Tanto... tanto e mais tanto... soma e segue!
Reconheço que devo já bastante,
mas vão cobrar ao diabo que os carregue.

Um precursor

Contando assim a sua vida, não faz parecer a importância de Cornélio Pires para a música caipira. Sem dúvida, foi um precursor, tido como o primeiro produtor independente de discos da fonografia nacional e o único com selo exclusivo dentro de uma gravadora que não era sua. Mas vamos contar como isso se deu:
Em 1927 chegava ao Brasil a gravação elétrica e, no início de 1929, saíam os primeiros discos da Colúmbia. Nesse tempo, Cornélio Pires já era nacionalmente conhecido. Ao saber do lançamento dos primeiros discos, Cornélio procurou Dr. Alberto Jakson Byington Jr., propondo-lhe a gravação de anedotas e música regional paulista.
Dr. Byington não se interessou pelo negócio e começou a colocar obstáculos. Primeiro, deu um preço elevado pela tiragem mínima de discos. Depois, exigiu o pagamento em dinheiro. Sem discutir, Cornélio saiu para voltar em breve com um pacote.
– O que é isso? – pergunta Dr. Byington.
– Abra e veja. – disse Cornélio.
Era dinheiro, muito dinheiro.
A primeira turma a ter gravada suas músicas, foram Mariano e Caçula, Zico Dias e Ferrinho, Arlindo Santana e Sebastiãozinho. Foram gravados seis discos, com tiragem de 5 mil cópias cada um. Uma tiragem espantosa e um sucesso absoluto.

Alguns de seus livros

Musa caipira, 1910; Versos, 1912; Versos velhos, 1912; Cenas e paisagens de minha terra, 1912; Monturo, 1915; *Quem conta um conto..., 1919; *Conversa ao pé do fogo, 1921; *Estrambóticas aventuras de Joaquim Benitnho, o queima campo, 1924; Continuação das estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho, o queima campo, 1925; Tragédia cabocla, 1926; Patacoadas, 1926; Seleta caipira, 1927; Almanaque do Saci, 1927; Mixórdia, 1927; Meu samburá, 1928; Sambas e cateretês, 1932; Chorando e rindo, 1933; De roupa nova, 1933; Só rindo, 1934; Tá no bocó, 1935; *Quem conta um conto... e outros contos (Coisas do passado), 1934; Enciclopédia de anedotas e curiosidades, 1945; Ondes estás, ó Morte!, 1944; Coisas do outro mundo, 1944.
Três livros não chegou a publicar: Prosa fiada, Caipiradas e Meu filho voltou. Os dois primeiros títulos desapareceram do hotel onde Cornélio Pires se hospedava em São Paulo. Meu filho seria sua biografia, perdida nas inúmeras viagens que escritor fazia habitualmente.

* Títulos reeditados por Ottoni Editora, Itu, www.ottonieditora.com.br, ottoni@ottonieditora.com.br,
fone (11) 4022-5309 – 4022-5312 – 4023-0197

Filmes baseados em seus livros

Sertão em Festa, dirigido por Osvaldo de Oliveira em1970, baseado no livro Meu Samburá.
A Marvada Carne, dirigido por André Klotzel em 1985, baseado principalmente no livro “As estrambóticas aventuras de Joaquim Bentinho, o queima campo”.

Sandra Abrano
Para reprodução no todo ou parte deste texto,
obrigatória a consulta à sandra@barroecordas.com.br

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